Por Rafael SantosHá momentos em que um silêncio ou um barulho a mais, algumas palavras dispostas em posições incomuns, o acréscimo de elementos do insconsciente e do irracional ou mesmo uma tinta aleatoriamente borrifada são o bastante para questionar a rigidez e o classicismo muitas vezes presente nas artes.
Não se trata de chocar apenas por chocar ou de dissolver padrões apenas pelo prazer em subverter a ordem. Muitas vezes a inovação e o experimentalismo estão mais ligadas às circunstâncias sócio-históricos do que ao simples desejo de destruir o que é duro e repetitivo. Nas mais diversas produções artísitcas podem ser encontrados instantes em que a inovação artística foi levada aos extremos.
Orson Welles e John Huston, por exemplo, transformaram o cinema devido às inovações técnicas dos seus filme
Cidadão Kane e
Rififi, respectivamente. Já
Um Dia De Cão, estrelado por Al Pacino, ganhou o prêmio BAFTA de Melhor Trilha Sonora - mesmo ele não tendo uma -, enquanto que o visceral
Irreversível e o perturbador
Amnésia narram suas histórias do fim para o começo.
Na pintura, encontramos Jackson Pollock (foto) criando
seus quadros andando sobre eles enquanto a tinta é atirada das suas mãos. Joan Miró, para poder expressar seu sub-consciente em forma de cores, se submetia à fome para produzir alucinações visuais - encontradas em
O Carnaval de Arlequim.Já o compositor musical John Cage escreveu a partitura de
4´33´´, na qual o músico não deve tocar sequer uma nota durante sua execução. Quem não iria gostar de tanto silêncio era o alemão Karlheinz Stockhausen, que produziu
uma obra em que um dos instrumentos usados eram helicópteros. A banda The Who, menos barulhenta, produziu
Tommy, uma ópera-rock que conta a história de um personagem fictício.
Em se tratando da arte de escrever:
A Cantora Careca, peça de Eugene Ionesco, conta a história de duas pessoas que começam a conversar e no final se dão conta de que são marido e mulher; James Joyce criou a técnica do fluxo de consciência; os dadaístas escreveram poemas utilizando palavras aleatórias - como destruir um espelho no chão e usar os cacos espalhados; e Clarice Lispector começou um livro com uma vírgula e o terminou com dois pontos.
Algumas dessas inovações e extremismos artísticos permanecem com os anos - chegando mesmo a se solidificarem e tornarem-se novos padrões -, outras, ou são muito novas ou se mantêm no esquecimento, talvez por ainda estarem muito à frente do nosso tempo.